Usucapião

Acabei acordando meio estranha naquela manhã. Não sei se foi o álcool ou o cigarro. Não sei se foi aquele maldito alarme misturado com as buzinas do trânsito de pessoas desesperadas e inexistentes indo de uma insignificância para outra. Não sei se foi a formiga que passeava na minha frente indo para algum lugar que fazia mais sentido. Não sei se foi a fresta de luz que deixei passar pela janela mal fechada antes de dormir. Não sei se por falta de força/vontade de viver ou se foi por um imenso desespero em me auto sabotar para fazer justiça por todas as outras auto sabotagens. Essa estranheza dolorida deixou uma ferida exposta. Os vermes estão fazendo um bom proveito. Alojaram-se. A reintegração de posse não saiu. Concluíram que a área estava desabitada. Abandonaram. Nem a porta estava fechada. Tudo estava na mais perfeita desordem. Cheirava abandono. As paredes ainda expunham as marcas dos desesperos que por ali passaram. Pela aparência das correspondências acumuladas, foi irreversível. Ali já não vivia aquele estranho desespero. Não vivia ninguém. Não vivia nada. Aos vermes, façam bom proveito. 

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